Estou congelada no tempo. O tempo passa e eu observo. As folhas caindo no chão, como os pedaços do meu coração. Nem sei mais o que ter coração significa. Não sei se o tenho aqui, talvez. É, ele está aqui, bombeando sangue e me deixando com os olhos abertos, mas eu não mandei ele fazer isso... Por que ele faz isso? As vezes acho que tenho algum tipo de sangue tóxico. Viajando pelos pensamentos na escura noite sinto a toxidade no meu coração, corroendo ele. Por que dói tanto? Começo a suar salgado. Alguns conseguem enxergar beleza nisso, mas tudo o que eu sinto é dor. Questiono diariamente o porquê de ainda estar aqui, tento desesperadamente entender, e sinto que me forço a acreditar em mentiras que eu mesma inventei, sentimentos passageiros. A minha vida é feita deles, os sentimentos passageiros. Eu perdi o controle do ônibus e eles entram e saem sem parar, mas talvez eu não ligue muito pra isso. Indiferença. Risadas, sorrisos, olhos encharcados, mãos trêmulas. Qual a diferença? Nada significa nada. Da euforia para a tristeza profunda em segundos. O fundo do poço em que já alcancei várias vezes, e que a cada vez parece estar mais fundo. O que será que tem no final do túnel? Eu atravesso a rua sem olhar para os dois lados. O carro branco está chegando. Não, você não precisa pagar nada. Me desculpe por fazer isso parecer um acidente.
Me sinto como um universo, com infinitas coisas, porém sempre tão vazio. Me sinto como a criança que é excluída da calçada. Talvez eu seja, mas vou ir para o outro lado da rua ficar sozinha. Consigo ver o tempo passando pelas minhas unhas, elas crescem, mas eu não. Meus pés andam, mas eu continuo no lugar. Ó rainha, por favor, sim eu a permito fazer isso. Transforme em poeira o rubi brilhante. Deixe-me cinza.
Eu não quero mais estar aqui, por favor.
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